Quando iniciamos um relacionamento amoroso, todos nós, sem exceção, entramos na dinâmica da vida a dois carregando uma “mochila invisível”. Dentro dela, trazemos roteiros já escritos, formados pelas nossas carências, pelos nossos desejos, pelos modelos dos nossos pais e pelas regrar e normas sociais. Nesses roteiros, esperamos que o outro seja o herói ou a heroína de uma narrativa que ele sequer teve a oportunidade de ler.
No entanto, quando aquela euforia inicial cede espaço ao cotidiano, a realidade se impõe. É nesse momento que o parceiro revela suas limitações, falhas e singularidades inegociáveis. Esse choque inevitável entre o “parceiro idealizado” (aquele que mora na nossa mente) e o “parceiro real” (aquele que divide a cama conosco) gera uma das dores mais profundas e invisíveis da vida conjugal: a frustração das expectativas não realizadas.
Para ilustrar como frequentemente lidamos mal com essa frustração, costumo recorrer a uma antiga e profunda história do sábio taoísta Zhuangzi, conhecida como a Parábola do Barco Vazio.
Conta-se que um homem navegava tranquilamente com seu pequeno barco por um rio, quando uma densa neblina baixou repentinamente. De repente, ele vê o vulto de outra embarcação vindo velozmente em sua direção, prestes a colidir. Imediatamente enfurecido, ele se levanta e começa a gritar ofensas, acusando o outro barqueiro de uma imensa imprudência. Todavia, quando os barcos finalmente colidem e ele se debruça para olhar, percebe que a embarcação que o atingiu está completamente vazia. Tratava-se apenas de um barco que havia se desprendido de suas amarras rio acima e descido à deriva pela correnteza.
Instantaneamente, a raiva daquele homem desaparece. E por que isso acontece? Porque não havia ninguém para culpar, tampouco existia uma intenção maligna para combater.
Sobretudo, esta metáfora nos ensina algo fundamental para a saúde de qualquer casamento: a maior parte do nosso sofrimento não nasce do evento ou do erro em si, mas da intenção e da expectativa que projetamos no outro. Lembre-se: na grande maioria das vezes, o seu parceiro age como um “barco vazio”. Ou seja, ele está sendo movido pelas suas próprias correntes internas, por seus traumas de infância, por suas limitações estruturais e por sua própria história, e não com a intenção deliberada de ferir ou frustrar você.
Ao longo dos meus 20 anos de experiência na psicologia clínica, período em que tive a oportunidade de ajudar mais de 1.000 pessoas a assumirem o comando de suas vidas através de um acolhimento terapêutico estruturado, percebo um padrão destrutivo. Quando tentamos, a todo custo, moldar o parceiro às nossas expectativas egoicas, estamos, na verdade, exercendo uma forma sutil de violência psicológica. Afinal, negamos a verdadeira essência (a ontologia) do outro.
Além disso, a ciência valida o quanto essa tentativa de controle é inútil. As extensas pesquisas do renomado psicólogo John Gottman, por exemplo, revelam que cerca de 69% dos conflitos conjugais são perpétuos, pois baseiam-se em diferenças fundamentais de personalidade e estilo de vida que simplesmente não vão mudar. Sendo assim, tentar consertar o parceiro é uma batalha perdida.
Qual seria, então, a saída? A resposta não está na resignação, mas sim na aceitação profunda (o que os taoístas chamam de Shòu).
É crucial diferenciarmos essas duas posturas. A resignação é passiva, carregada de amargura e vitimismo (o famoso “eu aguento isso porque não tenho escolha”). Em contrapartida, a aceitação é um ato de poder, de clareza e de maturidade emocional. Aceitar é dizer internamente: “Eu reconheço que você é assim, vejo as suas limitações, e escolho de forma consciente como me posicionar diante dessa realidade”.
Para alcançar esse estágio, precisamos praticar o Fang Xia, um conceito oriental que significa “soltar” ou “deixar ir”. No consultório, costumo explicar que soltar não significa abandonar o casamento, mas sim abandonar a imagem mental que você criou do outro. Como nos ensina a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, a frustração de uma expectativa é, na verdade, um luto. Precisamos ter a coragem de atravessar a negação e a raiva para, finalmente, enterrar aquele “parceiro ideal” que nunca existiu e dar as boas-vindas à pessoa real que está ao nosso lado.
Paradoxalmente, como bem pontuou o psicólogo humanista Carl Rogers com a sua “aceitação incondicional”, é apenas quando aceitamos o parceiro exatamente como ele é que criamos o ambiente de segurança psicológica necessário para que ele possa, por vontade própria, florescer e mudar.
Um convite à reflexão e ao reencontro:
Portanto, convido você a olhar para dentro de si hoje. Quais lutos das versões idealizadas do seu relacionamento você ainda precisa realizar para conseguir viver o presente? De que forma você tem usado as suas expectativas irreais como uma armadura para não se mostrar vulnerável diante do parceiro real?
É exatamente sobre essa jornada transformadora — de parar de lutar contra a realidade e aprender a usar as imperfeições e as crises cotidianas para salvar e fortalecer o casamento — que eu me aprofundo no meu terceiro livro, A Força dos Casais Imperfeitos, que será lançado em breve.
💌 Por isso, faço aqui o O MEU CONVITE MAIS ESPECIAL PARA VOCÊ: Assine o BIS! Se este artigo tocou você, eu tenho um convite imperdível. Assine, gratuitamente, o meu Boletim Informativo Semanal (BIS) para acompanhar as novidades mais exclusivas por aqui. É através do dele que você será a primeira pessoa a saber sobre o lançamento oficial do meu terceiro livro, A Força dos Casais Imperfeitos. Além de receber os bastidores da obra, os inscritos no BIS terão acesso a um presente muito especial e exclusivo no dia do lançamento. Não fique de fora dessa!
E até que chegue às suas mãos o meu terceiro livro, que tal praticar o “deixar ir” hoje mesmo? Lembre-se: o seu relacionamento real, com todos os seus defeitos, conflitos e belezas, é o único solo onde o amor verdadeiro pode de fato fincar raízes.
Dê os primeiros passos:
Aprofunde-se com meus livros
Conheça as obras que já ajudaram centenas de casais: “Quando a Relação Não Vai Bem…” e o “Guia Rápido: Tudo que Você Precisa Saber ANTES de se Divorciar”.
Conteúdo Toda Semana
Inscreva-se no meu canal do YouTube, o “Bora se Conhecer Mais”, e me acompanhe no Instagram @vitorpaese para doses diárias de conhecimento prático.
Agende sua consulta
Não deixe que o peso do passado e das expectativas irreais impeçam você de escrever um futuro mais feliz e assumir o comando de sua vida. Se você precisa de ajuda para lidar com crises na relação ou entender seus próprios padrões de relacionamento, eu estou aqui para guiar esse processo com um método terapêutico estruturado.
-
Para casais dispostos a reconstruir a relação antes que seja tarde: Conheça nossa Terapia para Casais, estruturada em sessões profundas de 120 minutos.
-
Para você que busca tratamento individual: Agende sua sessão de Psicoterapia Individual (60 minutos), disponível tanto na modalidade online para todo o Brasil quanto presencial em Florianópolis (Trindade).
👉 [Clique aqui para agendar seu horário de forma rápida e prática.]
FAQ: perguntas frequentes sobre expectativas e frustração conjugal
Para ajudar você a aprofundar ainda mais o seu autoconhecimento, separamos as dúvidas mais comuns sobre as idealizações na vida a dois:
1. O que causa a frustração conjugal no casamento?
A maior parte da frustração conjugal não nasce de erros intencionais do parceiro, mas do choque entre a realidade e a nossa “mochila de expectativas”. Quando projetamos um “parceiro idealizado” e cobramos que o “parceiro real” atue como um herói de um roteiro que criamos, a decepção é inevitável.
2. Como parar de criar expectativas irreais sobre o parceiro?
O caminho é a prática do Fang Xia (deixar ir) e da aceitação incondicional. Isso não significa aceitar abusos, mas sim compreender que o outro possui traumas, ritmos e características próprias (como um “barco vazio” movido pela correnteza). Abandonar a imagem mental de perfeição que criamos é o primeiro passo para amar a pessoa real.
3. Tentar consertar os defeitos do meu parceiro funciona?
Não. Segundo pesquisas do psicólogo John Gottman, 69% dos conflitos nos relacionamentos são perpétuos, pois derivam de diferenças fundamentais de personalidade. Tentar moldar o outro gera desgaste e violência psicológica. O foco deve ser em como o casal dialoga e lida com essas diferenças através da aceitação e da complementaridade.
4. Quando é o momento certo para buscar a psicoterapia de casais?
A terapia de casais é indicada quando a comunicação se torna um ciclo de acusações defensivas, quando há um distanciamento emocional silencioso ou quando as diferenças de expectativas começam a gerar mágoas profundas. Não é preciso esperar a relação chegar ao limite do divórcio; o acolhimento terapêutico preventivo ajuda a reestruturar a conexão antes que os laços se rompam.
_____________________
Sobre o autor: Vitor Paese é psicólogo, psicoterapeuta e terapeuta de casais há mais de 20 anos. Mestre em Psicologia Clínica, com especializações em Psicodrama Clínico, Acupuntura e TFT (Thought Field Therapy). Reside em Florianópolis/SC, onde atende em consultório. Conheça mais sobre o trabalho do Vitor.




